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#3/4 | Vieses de escolha de dieta informativa; raça e racismo em Economia Política da Comunicação; mulheres jornalistas esportivas; e mais

Olá, veja em detalhes as publicações selecionadas para a edição 3/4 da Periódica.

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Crafting Our Own Biased Media Diets: The Effects of Confirmation, Source, and Negativity Bias on Selective Attendance to Online News
Autores: Toni G. L. A. Van der Meer, Michael Hameleers e Anne C. Kroon


A facilidade de acesso a notícias sobre política e a diversidade de fontes proporcionadas pela internet permite uma maior customização da dieta de notícias e este comportamento pode levar a uma exposição enviesada a conteúdos.

Ao selecionar a exposição a certo tipo de notícia e a exclusão de outras, os indivíduos tendem a escolher fontes que reforcem crenças políticas e que façam parte da sua dieta costumeira. Em contraposição, excluem conteúdos discrepantes.

Os autores comentam pesquisas anteriores sobre o tema, que mostraram que a resistência à dissonância cognitiva pode resultar em viés de confirmação. No artigo apresentado, o foco de análise recai sobre enviesamento de fontes, que acontece quando o indivíduo apresenta uma tendência em não buscar ativamente por notícias, e negatividade, que diz respeito à preferência por notícias políticas negativas em vez de positivas.

Por meio do design experimental, a pesquisa se propõe a compreender os mecanismos que incidem sobre o viés de confirmação, enviesamento de fontes e negatividade (que compõem a exposição seletiva a notícias) nos Estados Unidos e Reino Unido.

Viés de confirmação. As pessoas tendem a selecionar mensagens que confirmem suas crenças de modo a manter uma imagem de si que seja positiva e consistente. É daqui que parte a primeira hipótese da pesquisa: "as pessoas são mais propensas a se exporem seletivamente a notícias políticas que confirmem suas atitudes pregressas do que a notícias que ataquem suas crenças".

Enviesamento de fontes. O intenso fluxo de notícias e informações pode forçar as audiências a procurarem por mecanismos de seleção que sejam menos demandantes. Assim, cria-se uma rotina de consumo de notícias que, aliada ao viés de confirmação, ajuda a explicar o fenômeno da hostilidade em relação à mídia. A segunda hipótese surge destas interações: "as pessoas são mais propensas a se exporem seletivamente a notícias políticas de veículos ideologicamente congruentes do que a notícias de veículos ideologicamente incongruentes".

Viés de negatividade. A negatividade é um importante valor-notícia que, em meio à disputa de atenção pelo excesso de notícias, adquire um caráter de diferenciação de um veículo para outro, uma vez que notícias negativas tendem a chamar mais a atenção das audiências. Tal comportamento levanta a terceira hipótese: "as pessoas são mais propensas a se exporem seletivamente a notícias políticas que tenham valência negativa do que valência positiva".

Para testar a influência destes três vieses, os pesquisadores selecionaram dois temas polarizados, imigração e privatização do sistema de saúde, nos Estados Unidos e Reino Unido para responder à pergunta norteadora: "quais são os papéis relativos do viés de confirmação, enviesamento de fontes e viés de negatividade na predição seletiva de exposição a notícias políticas? Esses efeitos têm papel robusto quando comparados dois assuntos em dois países?"

O grau de envolvimento do indivíduo com determinado tema ou fonte influencia diretamente em sua escolha. De modo que a quarta hipótese levanta que "quando indivíduos são mais envolvidos/interessados, os efeitos do viés de confirmação, enviesamento de fontes e viés de negatividade sobre a exposição seletiva são mais pronunciados".

O ceticismo também opera sobre os vieses de seleção. A desconfiança e o ceticismo direcionado a um veículo ou a uma informação e a sensibilidade na percepção do mundo como um lugar ameaçador impactam diretamente na dieta de notícias. Assim, a quinta hipótese aponta que "para indivíduos com maiores níveis preexistentes de ceticismo em relação a política, mídia e notícias políticas negativas, os efeitos do viés de confirmação, enviesamento de fontes e viés de negatividade sobre a exposição seletiva são mais pronunciados".

Método. Para testar o papel dos vieses, os pesquisadores desenvolveram um questionário online de modo que os respondentes foram expostos a notícias que representavam todas as combinações possíveis de vieses. Ao todo 428 respondentes dos Estados Unidos (média de idade de 38.90 anos, 67% mulheres, 40% com educação básica) e 430 do Reino Unido (média de idade de 37.69 anos, 55,74% mulheres e 52% com educação média) foram recrutados. Ao todo, oito manchetes sobre migração e oito sobre privatização do sistema de saúde foram selecionadas para o experimento a partir de notícias reais.

Resultados. As hipóteses 1, 2 e 3 foram confirmadas com o destaque para: "quando as manchetes são de acordo com a atitude política da pessoa e são de uma fonte de notícias congruente e construída de forma negativa", os participantes são mais propensos a selecionar este conteúdo em detrimento de outros.

Em relação às perguntas de pesquisa, descobriu-se que os efeitos do viés de confirmação são determinantes, enquanto os efeitos do enviesamento de fontes e viés de negatividade têm grandezas comparáveis.

Limitações. O estudo não se dedica a compreender o que acontece após a exposição seletiva e o experimento não expõe os participantes às infinitas modalidade de apresentação de conteúdo online. Os autores também estimulam que futuras pesquisas abordem temas menos polarizados e diversifiquem mais as fontes de informação, incluindo influenciadores, fact-checking, além de investigarem se as pessoas ativamente evitam determinada notícia.
Raça e Racismo nos estudos em Economia Política da Comunicação: da resistência à construção de uma agenda de pesquisa 
Autores: Ivonete da Silva Lopes e Paulo Victor Melo

Os autores apresentam a concepção de Carlos Hasenbalg (1979) sobre discriminação racial sendo esta "resultante das desigualdades entre brancos e não-brancos nas diversas áreas (...) e em diferentes momentos históricos" (p. 125).

Sodré (1998) argumenta que o racismo se demonstra nos meios de comunicação a partir de quatro aspectos que se complementam: negação, recalcamento, estigmatização e indiferença profissional.

No contexto da ULEPICC-Brasil, a resistência na criação de um GT focados nos estudos de gênero e raça provocou a reflexão dos autores sobre dois aspectos principais daqueles que se opuseram à proposta: "1) a possibilidade de se ter um grupo esvaziado, com poucos trabalhos; 2) a desqualificação de gênero e raça para pesquisas críticas em Comunicação".

Sobre o primeiro argumento, os autores trazem o dado concreto que a efetivação do GT Estudos críticos sobre gênero, raça e identidade comprovou o interesse dos pesquisadores, uma vez que 29 propostas foram recebidas na esteira do encontro bianual em 2020, sendo o segundo GT com mais resumos recebidos para o evento.

Em relação ao segundo ponto, os estudos de Economia Política da Comunicação têm viés de análise predominantemente econômico enquanto que variáveis de gênero e raça são importantes marcadores das relações de poder. E, mais, pela perspectiva interseccional, fatores como gênero, raça, classe são essenciais para uma análise crítica das desigualdades no contexto brasileiro.

A agenda de pesquisa proposta no trabalho para orientar pesquisas de raça e racismo parte de um desafio: a falta de dados sobre a atuação de pessoas negras no mercado. E a sugestão se apresenta em três eixos: trabalho; políticas de comunicação/estrutura do sistema midiático; e algoritmos/vigilância.

Trabalho. O foco de análise é a participação de pessoas negras nas estruturas hierárquicas das empresas de comunicação. Os autores sugerem referências iniciais: "Araújo (2000; 2010), Fernandes (1978), Hasenbalg (1979), Santos (1997), Leong (2013), Mick, Lima e Bergamo (2012), P. Silva (1987), S. Silva (2015), Sanders (2015) e Mills (1997)".

Políticas de comunicação e estrutura do sistema midiático. Abordagens de pesquisa que busquem compreender como a legislação do setor podem contribuir para diminuir desigualdades raciais; a representatividade étnico-racial nos meios de comunicação; controle social; e outros. Como referência, são sugeridos os trabalhos de "Aires e Santos (2017), Caribé (2010), González e Torres (2011), Harrys (1991), Hernández (2017), I. Lopes (2020), Melo (2018), Mills (1997), Santos (2018), Van Dijk (1991) e Silva, Santos e Rocha (2010)".

Racismo algorítmico e vigilância. Um olhar para o capitalismo de vigilância e como as tecnologias materializam a lógica racista, desde a concepção de algoritmos ao desenvolvimento de recursos como o reconhecimento facial. Nesse sentido, os autores recomendam as contribuições de "Buolamwini e Gebru (2018), Lohr (2018), Noble (2018), Silva (2019) e Zuboff (2015; 2019)".

Por fim, os autores reforçam o desafio na construção de uma agenda que se paute pelas questões de raça e gênero na EPC tanto pela falta de dados primários como pela construção de um marco teórico que articule EPC com estudos críticos sobre raça e racismo.


Mulheres jornalistas esportivas e mercado de trabalho: quem (não) as deixa trabalhar?
Autora: Lídia Ramires

O texto é parte da pesquisa de pós-doutoramento da autora (que analisa o discurso de jornalistas mulheres que atuam nas editorias esportivas a partir do manifesto #DeixaElaTrabalhar) e convida à reflexão sobre as condições das mulheres no mercado de trabalho.

Do estímulo ao esporte como algo "naturalmente" masculino e atividades ligadas à arte e ao belo como sendo femininas, os discursos que defendem que determinados espaços e atividades são reservadas a homens e outros a mulheres se perpetuam por gerações. A divisão sexual do trabalho, nesta perspectiva, valoriza o trabalho do homem como sendo superior ao da mulher.

A autora relembra das proibições legais para que mulheres desenvolvessem determinadas práticas esportivas — o futebol, por exemplo, foi proibido para mulheres no Brasil de 1941 até 1983. Além disso, o texto cita uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo que trouxe o dado de que apenas 4,6% das jornalistas são setoristas de Esportes como função principal.

As mulheres que atuam na cobertura esportiva lidam com constantes questionamentos à competência e com assédios e estereótipos. Para caracterizar a diferença de tratamento dado a homens e mulheres nesta cobertura, a autora alerta que ainda há estádios de futebol onde não há banheiro feminino para as profissionais.

Após sucessivos ataques e assédios a jornalistas mulheres que cobre esporte, foi veiculada a campanha online "Deixa ela trabalhar", objeto de análise do texto. A autora destaca o uso do verbo "deixar" como conflituoso pois aponta "para o sentido do pedido de permissão para o exercício de um direito".

A análise vai além ao examinar outros enunciados do manifesto da campanha que não mencionam questões como equidade e formação profissional, atendo-se estritamente ao sentido legal sobre a diferenciação do trabalho entre homens e mulheres. E também a sentidos que denotam o pertencimento e o reconhecimento de uma luta coletiva por direitos que convoca a todos e todas.

A autora expõe a contradição discursiva do manifesto e reforça que o reconhecimento do trabalho das mulheres jornalistas esportivas passa por uma apropriação discursiva, mas também por um amplo processo educativo que reconheça direitos e equidade.
Programe-se
[Publicações]
__Revista Tropos. Dossiê: Mídia, religião e religiosidades na era da digitalização. Prazo: 20/12.

__Revista Mediação. Dossiê: Representações distópicas na produção midiática. Prazo: 30/12. .

__Revista Mediapolis. Dossiê: Representações do jornalismo e dos jornalistas. Prazo: 10/01/2021. .

__Journal of Global Diaspora and Media. Dossiê: Migrações, diásporas e mídia: direitos humanos e (in)mobilidade durante a pandemia. Prazo: 15/01. .

__Radiofonias – Revista de Estudos em Mídia Sonora. Dossiê: Rádios universitárias em tempos de ataques à ciência. Prazo: 02/02. .

__Revista Líbero. Dossiê: Cinema de garagem e transmissão multimídia na Internet. Prazo: 15/02. .

__Revista Mídia e Cotidiano – 2ª Edição. Dossiê: A imagem e seus “diálogos”: linguagens, deslizamentos, insurgências. Prazo: 22/02. .

__Significação - Revista de Cultura Audiovisual. Dossiê: Arlindo Machado: Conceitos e processos poéticos nas comunicações e artes. Prazo: 07/03. .

__Brazilian Journalism Research. Dossiê: Populism, Media and Journalism. Prazo: 31/03/2021. .

__Revista Paulus. Dossiê: Comunicação, ética e ressignificação do humano. Prazo: 31/03. .

__Liinc em Revista. Dossiê: Infodemia e o Nosso Futuro. Prazo: 31/03. .

__Revista Mídia e Cotidiano – 3ª Edição. Dossiê: A informação e o mal: disputas éticas, políticas e epistemológicas da Comunicação em tempos extremos. Prazo: 14/06. .

__Revista Paulus. Dossiê: Comunicação, tecnologia e capitalismo de vigilância. Prazo: 30/09. .


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